A mesa de abertura do I Simpósio Nacional de Jornalismo em Quadrinhos: Lugar desenhado e memória foi marcada pela potencialidade que a reportagem visual em quadrinhos proporciona ao narrar fatos complexos. O Auditório do Instituto de Ciências Sociais e Aplicadas (Icsa) foi ocupado por estudantes da graduação, pós-graduação, docentes, pesquisadores e pela comunidade local.
O professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Henrique Leroy conduziu a mesa “O Universo dos Quadrinhos: as possibilidades de registro de memória e afetos em cada obra”, com a participação da ex-aluna do curso de Jornalismo da UFOP e criadora do site Fora do Plástico, Mariana Viana, e do quadrinista e jornalista João Marcos Mendonça, da Maurício de Sousa Produções. O jornalista Augusto Paim, o quadrinista Pablito Aguiar e a publicitária e quadrinista Hyna Crimson também participaram da mesa.
O autor de Doce Amargo, o quadrinista João Marcos, contou que o processo de produção foi realizado de forma autobiográfica. Na época do desastre-crime do Rompimento da Barragem de Fundão, em 2015, o autor vivia em Governador Valadares, uma das cidades atingidas pela lama de rejeito. João fazia um diário sobre as notícias e os acontecimentos vivenciados e buscou se aprofundar sobre o tema. O livro, publicado em 2025, foi uma decisão pessoal difícil, mas o autor se sentiu bem com o trabalho final. “Fiquei um pouco orgulhoso da minha decisão, porque tirei um peso em escrever um livro sobre uma injustiça, um descaso, uma tragédia que poderia ser evitada", afirmou.
Assim, o debate destacou a potencialidade da reportagem em quadrinhos para abordar temas sensíveis, como violação dos direitos humanos, feminicídios e catástrofes ambientais. Como foi narrado pelo repórter e quadrinista Pablito Aguiar, que contou no livro “Água Até Aqui” sobre as enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024.
O autor destacou que os quadrinhos criam uma relação afetiva com o público e que sua história é contada através da sua afetação. “Eu não consigo desenhar algo pelo qual eu não sou afetado. Por isso, para mim, é muito importante ir nos lugares para desenhar”. Hoje, Pablito conta histórias da Amazônia junto à Sumaúma, jornalismo feito pela jornalista Eliane Brum.
Para Mariana Viana, os quadrinhos têm um poder narrativo por resgatar histórias passadas, mas que são refletidas no presente. Nesse sentido, a jornalista destacou a obra franco-brasileira de Matthias Lehmann, em “Chumbo”, e a obra clássica "Persépolis", sobre a Revolução Islâmica do Irã, em 1979.
Mariana comentou que todas as histórias podem tornar os quadrinhos poderosos, principalmente em diálogo com o território. “Estamos em uma cidade tricentenária, a primeira capital de Minas, com pessoas de regiões diferentes, então temos muitas histórias possíveis”, ressaltou. Ela destacou também a importância da universidade. “A universidade pública é o espaço para que essas conversas aconteçam. Então, é importante que a comunidade esteja presente, assim como os alunos da graduação e da pós-graduação”.
Pedro Vinicius de Castro, morador de Mariana, revelou que o evento foi muito interessante e que já leu a obra "Maus: a história de um sobrevivente e Persépolis". “Gosto de quadrinhos com essas histórias e do traço do desenho”, conta. O interesse pelos quadrinhos surgiu na escola, com Ziraldo e Maurício de Souza. Já o professor Henrique Leroy, disse que as pesquisas desenvolvidas consideram os quadrinhos como agência de letramento não apenas literário, mas também como ferramenta para o ensino da língua portuguesa.
No encerramento, a organização lembrou das oficinas que serão ministradas pela quadrinista Hyna Crimson. Ela enfatizou que as oficinas do evento são para todos os interessados. “A oficina é igual para todos, mas cada resultado é único”. Hyna é autora de “Temporal”, obra sobre depressão na adolescência desenvolvida a partir do seu trabalho de conclusão de curso.