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O legado de Hipátia como inspiração

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Comemorar o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência significa reconhecer o acesso ao conhecimento como um direito em constante disputa. A história revela que mulheres já desafiavam a dominação masculina na produção de conhecimento séculos antes de a ciência se estruturar como profissão. No centro dessa resistência histórica, está Hipátia de Alexandria, filósofa e cientista do século IV, cujo legado permanece como um manifesto em defesa do pensamento crítico e livre.

Para a historiadora Ana Paula Scarpa, egressa da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), Hipátia, a primeira mulher matemática documentada da história, foi uma figura de pensamento livre e de comportamento contrário ao esperado pela época. “Ela era uma intelectual voltada ao pensamento lógico, aos cálculos e à astronomia. Formada em Atenas, assumiu a Escola Alexandrina seguindo os passos do pai, o filósofo Teon”, pontua a historiadora. Além da atuação intelectual, ela se destacou por seu engajamento político.

O brilho de Hipátia colidiu com o radicalismo de sua época. Alexandria viveu a transição do pensamento helenístico para uma cristandade massiva e ortodoxa e Hipátia foi torturada e arrastada em praça pública. “Ela morre como uma espécie de recado da cristandade ao paganismo, no sentido de que não havia mais vez para o pensamento crítico e racional que não fosse o da ortodoxia”, explica Ana Paula.

Séculos depois, a figura de Hipátia ainda encontra ecos. Nesta data, a trajetória da cientista alexandrina nos convida a olhar para o presente e perguntar: quantas mulheres ainda enfrentam mecanismos de silenciamento ao ocupar espaços de saber?

MENOS MULHERES NO TOPO - Se na Antiguidade a barreira era a intolerância religiosa e política, hoje ela se manifesta em estruturas institucionais visíveis. No Brasil, o fenômeno conhecido como “efeito tesoura” ilustra como as mulheres são gradualmente afastadas do topo da carreira acadêmica. 

A disparidade é gritante. Segundo pesquisa publicada na Revista Brasileira de Pós-Graduação, cerca de 57% dos estudantes de graduação são mulheres, porém, o percentual é reduzido conforme se avança na carreira científica no Brasil. Desse número, apenas 45% chegam à docência na graduação e 43% na pós-graduação. Se avançarmos para cargos políticos, a discrepância é ainda maior, como podemos observar em gráfico. 

grafico_mulheres_carreira_ciencia.png

ACI com dados da Revista Brasileira de Pós-Graduação
A pesquisa, com dados de 2022, mostra que há mais mulheres na graduação, mas elas não chegam aos cargos mais altos.

A diminuição da participação feminina nos níveis mais altos decorre de uma combinação de fatores, que incluem maternidade, excesso de trabalho e invisibilização. A maternidade ainda é lida pelo sistema como “queda de produtividade” e não como um processo social. Enquanto homens não têm a carreira afetada pela paternidade, mulheres enfrentam editais que desconsideram pausas necessárias para o cuidado, que infelizmente ainda não é distribuído entre homens e mulheres de maneira igualitária. O ambiente científico ainda exige um modelo de dedicação integral e competitividade agressiva, moldado em valores socialmente masculinos que ignoram a dupla jornada histórica das mulheres. Além disso, muitas vezes, o trabalho de pesquisadoras é invisibilizado, alimentando a percepção de que mulheres seriam menos merecedoras de prêmios de excelência. 

É importante ressaltar que esses fatores não atingem todas as mulheres da mesma forma, pois o recorte racial aprofunda a desigualdade. Cientistas negras e mães foram o grupo mais impactado pela queda de produtividade em momentos de crise, como a pandemia de Covid-19, conforme afirmam dados analisados pelo coletivo Parent in Science
 

AÇÕES PARA MUDAR O CENÁRIO - Hipátia de Alexandria nos mostra  que a luta pelo espaço do saber é milenar. Se no século V a intelectualidade da matemática foi interrompida pela intolerância, hoje o compromisso das universidades públicas é garantir que nenhum talento seja silenciado por falta de suporte ou equidade.

Diante deste cenário, algumas iniciativas institucionais buscam enfrentar as assimetrias de gênero e parentalidade no ambiente acadêmico. Para reafirmar seu compromisso com as cientistas, a UFOP lançou, em 2023, o Programa Maternidade e Universidade (ManU), com o objetivo de reduzir a evasão acadêmica por meio da concessão da Bolsa Maternidade a alunas da graduação presencial, acumulável com outras bolsas de assistência estudantil. Mais recentemente, em 2025, a UFOP instituiu a Política de Equidade de Gênero e Parentalidade, que estabelece diretrizes para a implementação de ações concretas nos programas de pós-graduação, como a flexibilização de prazos, a oferta de disciplinas em formatos híbridos, a previsão de critérios compensatórios em editais de seleção e credenciamento, além de suporte específico para docentes e discentes responsáveis por crianças na primeira infância ou por pessoas com deficiência.

Retomar Hipátia no Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência não é apenas recordar uma mártir do conhecimento, mas celebrar a persistência da inteligência feminina, que, apesar das desigualdades, continua a produzir as respostas que o mundo precisa. A ciência só atinge sua plenitude quando se torna um ambiente onde o intelecto pode, finalmente, florescer em toda a sua diversidade.

 

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