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Exposição Ganância debate mineração, memória e justiça climática na UFOP

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Eduarda Belchior
Faixas de tecido listradas em vermelho e branco estão expostas em uma área arborizada, com cartazes escritos à mão com as frases “Essa marca nossas vidas” e “Famílias destruídas”.
A Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) recebeu, na última quinta-feira (24), a mesa-redonda “Justiça Climática e Mineração: diálogos sobre os casos Samarco-Mariana (MG), Braskem-Maceió (AL) e Vale-Brumadinho (MG)”. A atividade integrou a programação da exposição “Ganância: Justiça Climática e Mineração“, que ocupou a Escola de Nutrição entre os dias 21 e 25 de setembro.
 
O encontro lançou luz sobre diferentes experiências relacionadas aos impactos da mineração, abordando temas como memória, deslocamento de comunidades, reparação, conflitos territoriais e justiça climática.
 
Participaram da mesa as professoras da UFOP, Deborah Pessoa, do curso de Administração e natural de Maceió; e Flora Passos, do Departamento de Arquitetura e Urbanismo e integrante do grupo de pesquisa e extensão Conterra; bem como a arquiteta e urbanista Lúcia Karine de Almeida, pesquisadora e doutoranda em Administração pela PUC Minas, natural de Brumadinho. A mediação foi realizada pela professora Cristina de Oliveira Maia, do Departamento de Biodiversidade, Evolução e Meio Ambiente da UFOP.
 
A realização do encontro ganhou significado especial para as participantes por acontecer na Escola de Minas, instituição historicamente vinculada ao ensino e à pesquisa sobre mineração. Para Deborah, idealizodora e coordenadora do projeto Ganância, a partir da aproximação entre suas experiências em Mariana e Maceió, levar a discussão para esse espaço era simbólico. “Eu acho muito significativo estar no auditório da Escola de Minas. A mineração do Brasil passa por essa escola e essa discussão é fundamental”, afirmou.
 
Impactos e reflexões
A mostra reúne diferentes registros dos territórios atingidos e busca aproximar essas experiências do público por meio da arte, da fotografia e da memória. Na Escola de Nutrição, a ocupação artístico-visual veio como uma provocação que propõe reflexão sobre os impactos da mineração na saúde e na alimentação das populações.
 
Deborah cresceu em um bairro onde sua família viveu por gerações. Em 2018, um tremor de terra atingiu justamente sua região e, posteriormente, o fenômeno foi associado à atividade de mineração de sal-gema. A experiência se somou à vivência em Mariana, atingida pelo rompimento da barragem de Fundão, em 2015. “Se eu vi acontecer aqui em Mariana, aconteceu em Maceió também, com minha família, com meus amigos, meus parentes”, relatou.
 
A partir dessa aproximação, Mariana, Maceió e Brumadinho foram apresentados na mesa não apenas como casos distintos, mas como experiências que permitem observar diferentes formas de impacto e de transformação provocadas pela atividade minerária. Em comum, apareceram relatos de deslocamento, perda de referências, mudanças nos modos de vida e processos de reparação que se estendem por anos. 
 
Relações comunitárias
Flora concentrou sua fala no caso de Mariana e frisou que compreender o rompimento da barragem de Fundão exige olhar também para o período anterior a 5 de novembro de 2015. A professora chamou atenção para as transformações provocadas pelo deslocamento compulsório de moradores de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, destacando as diferenças entre os reassentamentos e os modos de vida existentes nos locais de origem.
 
Ela mencionou ainda a ausência de espaços para plantar e criar animais, as mudanças no acesso à água e a alteração das relações comunitárias. A discussão sobre permanência apareceu novamente quando Flora apresentou as mobilizações das comunidades atingidas, que continuam realizando atividades nos territórios de origem, como celebrações religiosas, sepultamentos, plantios, criação de animais e encontros comunitários.
 
Efeitos permanentes
A experiência de Brumadinho foi apresentada por Lúcia Karine, que nasceu no município e pesquisa a regeneração da região após o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em 2019, e o papel do Rio Paraopeba nesse processo. A arquiteta abordou os efeitos que permanecem anos depois do rompimento e ultrapassam o momento da destruição da barragem. A paisagem, a relação com o rio, a circulação de pessoas e veículos, as obras de reparação e as relações entre moradores aparecem, em seu relato, como dimensões de um processo que continua transformando a cidade.
 
Ao aproximar os três casos, a mesa evidenciou que os efeitos da mineração não terminam com o rompimento de uma estrutura ou com a retirada das pessoas de suas casas, mas se prolongam na memória, nas relações comunitárias, no acesso à água, na paisagem e nos modos de vida, enquanto as populações atingidas seguem envolvidas em processos de reparação e reivindicação de direitos.
 
A ocupação da exposição na Escola de Nutrição foi encerrada na sexta-feira (25), mas a mostra permanece na Casa dos Contos, em Ouro Preto, até esta quarta (30).
 

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