Pesquisador da UFOP participa de artigo na Revista Science Imprimir E-mail
14-Dez-2012
Estudo de insetos dos topos das árvores traz dados inéditos sobre a quantificação da biodiversidade de florestas tropicais

Um grupo de pesquisadores de instituições de pesquisa e ensino superior, que inclui um professor da UFOP, acaba de publicar um artigo na Revista Science, em colaboração com pesquisadores de diversas instituições estrangeiras. A publicação apresenta dados inéditos de avaliação do número de espécies de insetos existentes nas florestas tropicais. A maioria das espécies multicelulares na Terra é artrópode, e destes, uma grande parte vive nas florestas. No entanto, dadas as dificuldades envolvidas em sua catalogação, sabe-se muito pouco sobre seus números exatos, mesmo na escala de uma única floresta. Agora, este novo estudo, realizado no Panamá, oferece um nível de detalhes sem precedentes sobre a diversidade e distribuição de espécies de artrópodes da floresta, desde o solo até o dossel.


Segundo o professor Sérvio Pontes Ribeiro, que é Doutor em Ecologia pelo Imperial College, UK, e Professor do Departamento de Biodiversidade, Evolução e Meio Ambiente (Debio), do Instituto de Ciências Exatas e Biológicas (Iceb), o topo das florestas tropicais é uma área pouco estudada devido às dificuldades de acesso, mas que contém imenso potencial para a pesquisa científica, dada a diversidade biológica e o ecossistema que sobrevive acima do topo: “É um ambiente que se distingue do solo pela alta incidência de luz solar, um habitat distinto, mais seco e estressado. Chamamos de cerrado do alto da floresta”.

f1.medium.gifAlém do professor Sérvio, o grupo é constituído pelo professor Jacques H.C. Delabie, doutor em Entomologia pela Université Paris VI, França, pesquisador do Centro de Pesquisas do Cacau (CEPLAC) e professor da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) em Ilhéus, pelo professor Evandro Gama de Oliveira, Doutor em Zoologia pela Universidade do Texas, Austin, US, e professor no Centro Universitário Una (Belo Horizonte, MG), e por Wesley Duarte da Rocha, Mestre em Zoologia pela Universidade Estadual de Santa Cruz, BA.

Yves Basset, do Smithsonian Tropical Research Institute, foi o responsável por conduzir a equipe internacional do Projeto IBISCA-Panamá no longo trabalho de amostragem, triagem, identificação e, finalmente, estimativa de números de espécies de insetos viventes em uma única floresta. O grupo estima que 6 mil hectares de floresta abriguem um total de 25 mil espécies de artrópodes – um número impressionantemente superior à estimativa de outros grupos de organismos melhor estudados.

Um grande esforço de colaboração, envolvendo 102 pesquisadores de 21 países, foi necessário para coletar e identificar artrópodes de todas as partes da floresta tropical localizada em uma área protegida por mais de 100 anos, o Parque Nacional de San Lorenzo. No período de um ano, entre 2003 e 2004, a equipe de campo exigiu um esforço de cerca de 70 pessoas-ou-armadilha/ano de amostragem do dossel da floresta, usando guindastes, plataformas, balões infláveis, escalada cordas, bem como em trabalho no chão da floresta para peneirar solo, armadilhar e iscar artrópodes. Ao longo dos oito anos seguintes, a equipe triou e identificou 130 mil artrópodes, em um total de mais de 6 mil espécies.

Os pesquisadores das instituições brasileiras atuaram principalmente nas expedições de campo, especificamente na coleta insetos herbívoros (Prof. Sérvio) e de mariposas (Prof. Evandro). A identificação das formigas, um dos grupos de insetos mais representado nas amostragens, ficou a cargo do Prof. Jacques e de Wesley.

Os estudos sobre o tema são ainda bastante recentes, tendo sido iniciadas na década de 1980. As primeiras pesquisas relacionadas aos insetos de dossel tentavam responder qual seria a quantidade de espécies de animais existentes no Planeta, o que ainda é um grande desafio científico. No estudo publicado na Revista Science, os pesquisadores buscaram responder à questão: quantas espécies existem em uma única floresta?  “Essa mudança de foco nos permitiu elaborar novas técnicas e diretrizes de pesquisas, que chegam a um quadro mais fidedigno da biodiversidade das florestas tropicais em todo o mundo”, explica o professor Sérvio.


Resultados

dscn3083.jpgAo escalonar os valores de diversidade obtidos a partir de 12 locais intensamente amostrados, a equipe foi capaz de calcular que a floresta produzia acima de 25 mil espécies de artrópodes. "Este é um número alto, já que implica que, para cada espécie de planta vascular, ave ou mamífero nesta floresta, você vai encontrar 20, 83 e 312 espécies de artrópodes, respectivamente", explica o professor Yves Basset. "Se estamos interessados em conservar a diversidade da vida na Terra, devemos começar a pensar sobre a melhor forma de conservar os artrópodes", acrescenta Tomas Roslin, um dos 35 co-autores do artigo, da Universidade de Helsinque.

"O que nos surpreendeu foi que mais da metade de todas as espécies podem ser encontradas em um único hectare da floresta", diz Basset. "Esta é uma boa notícia, porque significa que, para determinar a diversidade de espécies de uma floresta tropical, não precisamos amostrar áreas gigantescas: um total de um hectare pode ser suficiente para se ter uma ideia da riqueza de artrópodes regional, desde que esse total inclua parcelas espaçadas e representativas da variação dentro da floresta", observa Roslin.

Outra descoberta interessante do estudo foi a constatação de que a diversidade de artrópodes herbívoros e não-herbívoros pode ser prevista com precisão a partir da diversidade de plantas. "Ao concentrar os esforços de conservação em locais floristicamente diversos, podemos preservar uma grande fração de artrópodes sob o mesmo “guarda-chuva”. Além disso, isso fortalece uma tese antiga de que realmente devemos nos basear em estimativas de riqueza de espécies globais sobre o número de espécies de plantas", salienta Roslin.


Yves Basset conclui que a pesquisa aponta para a necessidade de estudos mais densos e completos acerca da biodiversidade: "Embora tenhamos atribuído imensos recursos para o mapeamento dos nossos genes, resolvendo subatômicas estruturas e à procura de vida extraterrestre, temos investido muito menos em explorar com quem compartilhamos a Terra”. O professor defende maiores investimentos nos estudos da área, a fim de ampliar as possibilidades de descobertas científicas relevantes.

Os resultados do estudo estão publicados na última edição da Revista Science. A pesquisa pode contribuir para o desenvolvimento de projetos de conservação e preservação ambiental, além de dar visibilidade ao grande potencial de estudos científicos ainda não explorados nas florestas tropicais.


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Sobre o IBISCA


Conhecido pela sigla IBISCA (Investigating the Biodiversity of Soil and Canopy Arthropods, ou Investigando a Biodiversidade de Artrópodes do Solo e do Dossel, em tradução livre), o projeto faz parte de uma cooperação internacional que, desde 2002, reúne pesquisadores de diversas instituições no esforço de responder a uma mesma pergunta em diferentes florestas do mundo. Até o momento, o grupo já realizou expedições na Austrália, Vanuatu e França, além do Panamá. A liderança deste grupo é do Dr. Yves Basset (Smithsonian Tropical Research Institute, ou Instituto Smithsoniano de Pesquisa Tropical) e do grupo francês Operacíon Canopée/Radeau-des-cime, sob a direção do Prof. Bruno Corbara, da Université Blaise Pascal, França. A Operacíon Canopée é uma organização de arquitetos-inventores, baloeiros, escaladores e pesquisadores devotados a criar facilidades de acesso ao dossel florestal. Pesquisadores dos seguintes países também participaram da pesquisa: Alemanha, Austrália, Bélgica, Brasil, Canadá, Dinamarca, Estados Unidos, Finlândia, França, Grã-Bretanha, Itália, México, Noruega, Portugal, República do Panamá, República Tcheca e Suíça.

O professor Sérvio faz parte de um pequeno grupo de pesquisadores-escaladores, tendo executado sua pesquisa com técnicas próprias para o acesso aos dosséis, desenvolvidas no Brasil com a supervisão de escalada de Luiz Rocha (Soluções Verticais Ltda, Belo Horizonte) e aprimoradas na experiência internacional das expedições IBISCA.


Créditos das fotos:
1. Capa da Revista Science, divulgação
2. Prof. Sérvio Pontes Ribeiro
3. J. Schmidl
Atualizado em ( 14-Dez-2012 )
 
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